Deitado eternamente em berço esplêndido
Por Solange
Pereira Pinto
Começou o segundo turno. Começou o
teatro. A tragicomédia. Domingo teve debate na Band. Não de idéias ou de
projetos fundamentados. Foi uma "altercação" de farpas. Confesso que gargalhei
algumas vezes. Os candidatos ao trono do rei usaram das artimanhas da velha
Grécia. Sofismaram, mas sem a graça dos filósofos. Foi um espetáculo rasteiro.
Parecia uma feira de discursos enlatados. Sardinhas. Eu, sentada na
ágora-virtual-televisiva, assistia para ver quem vendia melhor o bacalhau de
terceira. Lembrei-me do Chacrinha, comunicador sem igual. Terezinha
uuuuuuuuuuhhhhhhhhhh! Senti-me uma Terezinha. Ataca de lá, defende de cá. Quem
quer o abacaxiiiiii? Ambos.
Alckmin e Lula digladiando para
ver quem leva o pepino-Brasil para casa. De um lado, o gladiador
ex-comedido-vociferando e a saliva lhe faltava. Dava para notar a boca seca de
Alckmin. Do outro lado da arena, o gladiador-à-reeleição ironizando atrás das
barbas. Lula sorria se safando e colocando a mãe no meio. O tucano era
dublê-de-fiscal-de-contas. O petista retrucava como
marido-traído-último-a-saber. Parecia conversa de casamento falido. As gravatas
amarela e vermelha na bravata. Fanfarrice total. Eu sou melhor! Mentiroso!
Leviano! Palavras mais que ouvidas durante a peleja. Nada elevava para além
disso. Mixórdia em rede nacional.
Tem gente dizendo que isso é
democracia. Aventando que o Brasil ficará melhor depois desse (e de outros)
domingo. Será? Nada se ouviu de concreto, até porque não se tem nada possível
nesse sentido. As mesmas ladainhas de "investir no desenvolvimento do país,
acabar com a miséria, aumentar o número de empregos, melhorar a saúde pública, a
segurança e a educação". Ai, que canseira! Tudo isso está caducando na
Constituição faz tempo. Se Alckmin representa a elite e Lula o povão deveriam se
tornar aliados. Mas, ninguém agrada gregos e brasileiros numa só vez.
O discurso azul é sim para pequena
parte do país, que entende o linguajar, a tradição e os bons-costumes do
candidato opositor. O discurso vermelho fala diretamente para a grande maioria
da população brasileira, de forma simples, populista e carismática. Por analogia
um é "catedral" e o outro é "universal".
Duvido, contudo, que esses
discursos façam qualquer diferença para este Brasil alquebrado e bocejante. O
eleitor vota em quem quer. É um fato. Porém, em quem quer significa "por
afinidade". Ou até mesmo por "antipatia". O brasileiro não vota em propostas,
até porque elas nem existem de fato além do papel e das caras cartilhas
produzidas marketeiramente.


















