Por Sônia Eva Tucherman
No trabalho as mulheres reclamam de salários mais baixos. Em casa, muitas vezes elas ganham mais que os parceiros, o que gera conflitos e compromete a relação
Quando uma mulher ganha mais do que o marido subverte a regra estabelecida, preconceituosa, de que cabe ao homem prover financeiramente a família, e à mulher cabe prover afetivamente a relação. Na verdade, este é um preceito maniqueísta que acaba por colocar o homem como antagônico à mulher.
Dentre os problemas mais comuns nesta situação, o dinheiro é um elemento que se presta facilmente a lutas de poder, tanto entre pessoas quanto entre nações. O dinheiro pode ser -- e tantas vezes é - utilizado como arma de poder para submeter o outro, que permanece diminuído e dependente. Assim, empresta àquele que o possui a ilusão de uma potência fantástica, uma onipotência, que envaidece.
Penso, portanto, que a questão não é quem ganha mais, e sim, que uso se faz do dinheiro. Se o dinheiro é usado para exercer poder sobre o outro, dominar e submeter o outro, a relação é perversa, e aí não importa se é o homem ou a mulher o dominador. Esta espécie de relação, às vezes, é sutil, podendo estar camuflada, por exemplo, atrás de uma pseudoproteção.
Competição e disputa pertencem a este mesmo terreno já que implicam em um vencedor e um vencido, um vitorioso e um derrotado, dois rivais numa luta esterilizante.
Estes problemas surgem porque esta espécie de poder sobre o outro é, geralmente, confundida com virilidade, com potência sexual masculina. Erroneamente, o homem é considerado potente quando domina alguém, quando subjuga alguém - uma mulher, um filho, um empregado. A arma de poder (fallus) pode ser o pênis, o dinheiro, a força, a autoridade.
Tal situação pode se inverter, e a mulher ser a detentora de uma arma de poder, triunfando sobre o homem que tende a se sentir derrotado e impotente.
Um casal pode e deve ser feliz, mas como? A verdadeira potência é aquela do verbo poder, que se conjuga junto com o outro, compartilhando meios e fins, recursos e projetos: eu posso, tu podes também, nós juntos podemos. Não há um dominador e outro submetido. Há dois juntos que se somam. Este é um casal potente, fértil e criativo.
É comum estabelecerem-se papéis bem definidos e distintos para o homem e a mulher, como se a diferença sexual implicasse diferença na capacidade criativa, ou intelectual, ou afetiva, ou profissional. Em lugar de compartimentar, é o compartilhar que caracteriza genuinamente um par - dois juntos -- sem que caiba a uma pessoa papel superior, melhor ou mais importante.
Duas pessoas que se dispõem a criar algo juntas - seja uma família, um trabalho, uma idéia -- que têm, portanto, um projeto em comum, estão se dispondo a compartilhar, somar os recursos que possuem, cada qual participando com o máximo que pode. Desta forma, se obtém um resultado que não pertence a um nem a outro, pois já não se vê o que veio de um nem de outro. É um fruto daquela dupla.
O que todos buscam são receitas de bem-viver; mas o fato é que não há receitas. O que fazemos é convidar a pessoa a pensar sobre suas relações, sobre o uso que está fazendo do dinheiro.
Tentar desenvolver o respeito pelo ser humano - pelo outro e por si mesmo. Ver a si mesmo como fazendo parte de um todo, favorece a atitude de cooperação em vez da competição. Esta postura permite que cada qual se sinta fazendo sua parte para um resultado que pertence a todos; todos criando para gerar algo que é o fruto. Daí advêm sentimentos de proximidade, cumplicidade, fertilidade, que transformam o casal em parceiros em lugar de adversários.
As grandes famílias patriarcais têm uma tendência a desaparecerem. O modelo patriarcal já não atende às exigências do mundo atual. As famílias mudaram, não acabaram, continuam sendo necessárias. Porém, estão se construindo em novos modelos. De suas novas formas surgem novas relações, menos hierarquizadas. Essas relações podem ser mais próximas, mais verdadeiras, mais amorosas.
Vejamos os exemplos de três casais. No primeiro, ele perde emprego/ganha menos, ela sustenta a casa/ganha mais, surgem conflitos que não se resolvem; no segundo, ele ganha menos, ela ganha mais, surgem conflitos que se resolvem; no terceiro, não surgem conflitos.
É preciso, portanto, valorizar outros aspectos do ser humano. A supervalorização do aspecto financeiro é uma deturpação e uma violência contra todas as outras capacidades do indivíduo.
Sônia Eva Tucherman é médica psicanalista, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro.
Texto originalmente publicado no site Mais50


















