
O que é isto?

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Palavreando...
Sexta-feira , 22 de Setembro de 2006
Melancolia - Parte I
Por Janeth Fontes
[Mélancholie - Arte de Jean Jacques Henner 1829-1905]
É nessa hora vazia
que lenta agonia
Me vem visitar...
Na Antiguidade, a Teoria Humoral, teoria médica vigente na época, que teve seus princípios herdados dos pitagóricos por Hipócrates, o comportamento e funcionamento do corpo humano era explicado pela existência de quatro humores, o sangue, o fleuma, a bile amarela e a bile negra. Cada um destes humores, no sentido do significado primitivo da palavra, como líquido, e não como disposição de espírito, como a usamos atualmente, correspondia a uma estação do ano, a uma etapa da vida humana, a uma natureza da matéria, a saber, terra, água, fogo e éter ou ar, e assim por diante. O equilíbrio destes quatro configurava a boa saúde, tanto física quanto mental, e suas perturbações eram sentidas pelo seu portador. Regulava-se a saúde pela aplicação do contrário àquilo que estava em demasia, ou seja, combate-se o frio pelo calor e a sequidão pela umidade. Aristóteles, bem como seus contemporâneos e a quase totalidade dos cientistas e estudiosos de medicina até quase a modernidade, acreditava que um dos humores preponderava no temperamento das pessoas, e as influenciava determinantemente. Os melancólicos eram dominados pela bile negra, donde vem o nome desta afecção, melas, negro, e chole, bile. Este humor tem, em sua natureza volátil, a propriedade de causar em seus portadores um comportamento semelhante ao vento de que é composta, ou seja, uma constante inconstância, que não seria desígnio de doença, como naqueles que ela apenas ataca esporadicamente, os deprimidos, e sim por natureza. Esta volubilidade é o que desencadeia a alternância entre os estados passivos e ativos dos melancólicos, entre a inatividade desinteressada, o isolamento dos obscuros, a tristeza sem razão e a aparência sombria e a atividade convulsa, o envolver-se impetuosamente nas mais difíceis e gloriosas empreitadas, o furor criativo e a dedicação compulsiva a algum afazer que os caracteriza como pessoas de exceção, gênios de excelência naquilo a que se dedicam.
Durante a Idade Média a melancolia não é vista somente como desequilíbrio dos humores corporais, mas também como influência maléfica do mais distante dos planetas conhecidos até então, o mais antigo e desgraçado dos deuses do panteão clássico, Saturno. Estes conceitos chegam até a Baixa Idade Média através dos estudos astronômicos dos árabes, que começam a conquistar a Europa através da Península Ibérica, levando não apenas armas, mas também cultura e ciência. A identificação de Saturno com a inconstância melancólica se dá através dos paralelos traçáveis desta com a história do deus dentro da mitologia, ele ora é o senhor de todos os deuses, ora o deus desterrado, exilado e humilhado, a um só tempo pai de todos e deus castrado, impotente. Também seu correspondente na mitologia grega, Cronos, o senhor do tempo, ajuda neste processo. Ele é o deus do tempo, da consumição de tudo o que cria, devora seus filhos, presentifica o não-ser sendo a causa da morte inexorável, evidenciando a vacuidade de toda obra humana, demonstrando que o orgulho de nossa racionalidade não passa da maior das vaidades, e nada vale, pois somos apenas pó, estamos fadados à morte assim como tudo o que existe está condenado a não existir mais, é apenas questão de tempo.
Melancolia - Parte II
A melancolia, em seu estado inativo, é vista pejorativamente, enquanto é identificada com a preguiça, que é pecado capital e vista por alguns como o maior de todos os pecados. A capacidade de criação que ela inculca em seus portadores não é valorizada porque, nesta época, a arte não tem valor estético, mas apenas utilitário, o artista não passa de um canal da manifestação da graça divina, ele é inspirado, e sua obra não precisa ser bela, do ponto de vista da forma, e sim útil quanto ao seu conteúdo. Quanto mais nos aproximamos do fim do Medievo e dos alvores do Renascimento, mais a melancolia vai recuperando seu aspecto qualitativo, conforme tinha na Antiguidade, pois vai despontando a genialidade dos artistas e a capacidade criativa do sujeito por ele mesmo, independente de qualquer estância externa. Assim como a melancolia é colocada ao lado dos santos sob a designação de acedia, que é o desligamento das coisas mundanas e a elevação ao que é espiritual, à contemplação do ser divino, em uma fusão com a divindade que desobriga o corpo de qualquer vínculo com o que for terreno e mundano.
Tristezas, soluços, ais,
Eis a verdade da minha vida.
Quando eu partir, com certeza,
Levo minha alma ferida.
Então indagarei ansiosa
Quem é Deus?... Onde estará?
As profundas modificações psicológicas ocasionadas pelo Renascimento trazem a melancolia de volta plenamente imbuída do caráter de excelência e motivo de orgulho em virtude das produções que estimula no campo das artes e da filosofia. A quebra dos antigos paradigmas no campo da fé, pela Reforma Protestante, e no campo do conhecimento, através da Renascença, que davam ao homem todas as respostas, ocasiona a potencialidade da exploração dos limites do intelecto humano em diversos campos. Revolucionam-se as ciências, revolucionam-se as éticas religiosas, revoluciona-se o que o homem pensa dele mesmo e aquilo através do qual ele se define. Mas, simultaneamente a esta efervescência de criações culturais, o ser humano toma a consciência de que está terrivelmente só, e de que é senhor absoluto de seu destino, único árbitro de sua conduta, e este peso é demasiadamente opressor para que ele o carregue sem cambalear novamente entre dois pólos opostos, o furor criativo intercalado pela apatia. Em um primeiro momento, coloca-se o sentido da vida, da própria e de tudo o que há, em uma projeto qualquer, em uma realização ou em um desejo a ser realizado. Uma vez este realizado, esvazia-se de sentido e abandona-nos novamente no deserto da falta de certezas, da multiplicidade de possibilidades e perspectivas.
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Melancolia - Parte III
Mas afinal o que é melancolia?
Freud designou-a como um desânimo profundamente penoso, a cessação de interesse
pelo mundo externo, a perda da capacidade de amar, a inibição de toda e qualquer
atividade, e uma diminuição dos sentimentos de auto-estima a ponto de encontrar
expressão em auto-recriminação e auto-envilecimento, culminando numa expectativa
delirante de punição. A psiquiatria designa como um estado mórbido caracterizado
pelo abatimento mental e físico que pode ser manifestação de vários problemas
psiquiátricos, tendendo hoje a ser considerado mais como uma das fases da
psicose maníaco-depressiva. Já segundo o dicionário Houaiss, podemos considerar
a melancolia como um estado afetivo caracterizado por profunda tristeza e
desencanto geral; depressão. Na derivação por extensão de sentido, melancolia é
um sentimento de vaga e doce tristeza que compraz e favorece o devaneio e a
meditação. Entretanto eu prefiro a explicação simples, mas nem um pouco
simplória, de Moacir Scliar: Melancolia é, antes de tudo,
algo que faz parte da natureza, é uma condição existencial. Diferente da
tristeza que é passageira; do tédio, que nos dá a sensação de que o tempo não
passa; da depressão, termo moderno para uma condição clínica psicológica
associada a fatores psicossociais, a melancolia, antiga companheira da
humanidade, é tanto uma doença (como a depressão) como um estado de espírito
(como a tristeza e o tédio). O sucesso de livros sobre o assunto, no século XVII
na Europa e no começo do século XX no Brasil, são sintomas de grande
identificação com o tema.
Porém, como já vimos acima, a
melancolia não fica relegada apenas à esfera dos artistas, ela atinge qualquer
pessoa. A única diferença é que a “melancolia de artífice ou melancolia de
artista, é a melancolia criativa, que aparece nos homens de exceção e que, ao
contrário da melancolia apática e desinteressada, vista como doença, faz da
angústia o motor propulsor da criação e da genialidade, doando sentido ao
absurdo da existência”.
Dia a dia a mesma
coisa
Nesta vida tão
maninha,
Horas inteiras
passando
Filosofando sozinha.
Ainda segundo Marsílio Ficino –
uma das figuras mais importantes do Renascimento Italiano, conhecido através de
seu trabalho de tradutor de obras clássicas e autor – a melancolia, um dom
divino e singular, influencia ambiguamente a profunda reflexão e o isolamento, a
apatia e o furor criativo, o desinteresse e o brilhantismo intelectual. A saída
apontada como paliativo contra as influências maléficas de Saturno era,
justamente, se dedicar por inteiro às suas influências benéficas, como a criação
artística, a reflexão filosófica, o estudo profundo, pois, apesar de ser o
último e mais elevado dos planetas, também é ligado ao desterro nas profundezas
do mundo, tanto eleva a alma quanto possibilita que ela mergulhe profundamente
em autoreflexão. Portanto, um melancólico não tem outra alternativa senão
resignar-se ao seu destino sob os mandos de Saturno, ser excelente e sofrer por
isto.
Mágoas... Mágoas... Sempre
mágoas
Enchendo meu
coração.
Procuro alegrias na
vida
E só encontro
solidão.
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[Continuação de Melancolia]
Tristeza do Infinito
Cruz e Sousa - 1861-1898
Anda em mim, soturnamente, uma tristeza ociosa, sem objetivo, latente, vaga, indecisa, medrosa.
Como ave torva e sem rumo, ondula, vagueia, oscila e sobe em nuvens de fumo e na minh'alma se asila.
Uma tristeza que eu, mudo, fico nela meditando e meditando, por tudo e em toda a parte sonhando.
Tristeza de não sei donde, de não sei quando nem como... flor mortal, que dentro esconde sementes de um mago pomo.
Dessas tristezas incertas, esparsas, indefinidas... como almas vagas, desertas no rumo eterno das vidas.
Tristeza sem causa forte, diversa de outras tristezas, nem da vida nem da morte gerada nas correntezas...
Tristeza de outros espaços, de outros céus, de outras esferas, de outros límpidos abraços, de outras castas primaveras.
Dessas tristezas que vagam com volúpias tão sombrias que as nossas almas alagam de estranhas melancolias.
Dessas tristezas sem fundo, sem origens prolongadas, sem saudades deste mundo, sem noites, sem alvoradas.
Que principiam no sonho e acabam na Realidade, através do mar tristonho desta absurda Imensidade.
Certa tristeza indizível, abstrata, como se fosse a grande alma do Sensível magoada, mística, doce.
Ah! tristeza imponderável, abismo, mistério, aflito, torturante, formidável... ah! tristeza do Infinito!
Fontes consultadas para elaboração do texto: Wikipédia Enciclopédia e Dialética Brasil.
Trechos das poesias Hora Vazia e Trovas das Minhas Mágoas de Neuza Rodrigues Leonel Livro “Vozes do Coração”.
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Quarta-feira , 20 de Setembro de 2006
Coleção do Museu Pergamon
Por Simone Balliari
Está em exposição até o dia 26 de novembro no Museu de Arte Brasileira da FAAP a exposição “Deuses Gregos - Coleção do Museu Pergamon de Berlim”. Quem tiver a oportunidade de visitar esta exposição, poderá conferir de perto imagens de deuses, dádivas preciosas, santuários, além de aspectos do antigo ritual e da música oferecida aos deuses gregos. Cerca de aproximadamente 22 toneladas de obras de arte, distribuídas em 80 caixas estão expostas. Entre elas destacam-se imagens de Afrodite, Ártemis, Apolo, Zeus, entre outras representações de deuses, heróis e semi-deuses gregos.
O Museu de Pergamon encontra-se em Berlim e é um dos cinco grandes museus localizados sobre uma ilha do Rio Spree. Foi construído entre o período de 1910 a 1930 e abriga edifícios monumentais de originais como o altar de Pergamon, a porta do mercado de Miletus e a porta de Ishitar, sendo que estas peças foram trazidas dos locais de sua escavação. O museu de Pergamon foi danificado severamente durante o ataque aéreo em Berlim no fim da segunda guerra mundial. Para preservar as peças, muitos dos objetos da exposição foram armazenados em lugares seguros. Em 1945 o exército vermelho coletou todos os artigos do museu para salvá-los da destruição e do fogo que atingia então a cidade de Berlim. Até que em 1958 a maioria dos objetos foi retornada do leste alemão. Algumas partes da coleção são armazenadas ainda no museu de Pushkin, em Moscow e em St. Petersburg, respectivamente. O retorno destes artigos foi arranjado em um tratado entre Alemanha e Rússia em junho de 2004.
Parte do acervo exposto aqui em São Paulo vem da parceria da FAAP com o governo brasileiro na área de intercâmbio cultural entre Brasil e Alemanha, e a promoção é do Ministério da Cultura.
Quem quiser conhecer estas maravilhas da antiga Grécia-Roma tem até o dia 26 de novembro para ir ao Museu de Arte da FAAP, que fica na Rua Alagoas, 903, Higienópolis. O horário de visitação é de terça à sexta-feira das 10 às 20hs, e aos sábados, domingos e feriados das 10 às 17hs. E o mais importante para ninguém deixar de ir: a entrada é gratuita!
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Segunda-feira , 18 de Setembro de 2006
O direito à infelicidade
Por João Pereira Coutinho
Os manuais de auto-ajuda apresentam o infortúnio como um elemento estranho à condição humana.
É UM dos fenômenos mais interessantes: compramos a imprensa brasileira e, nas tabelas de best-sellers, encontramos ficção, não-ficção. E a outra. Qual outra? A categoria de auto-ajuda, claro. Acompanho sempre. Leio sempre.
Não digo compro sempre, mas vocês percebem a idéia. Mais: quando cruzo o Atlântico e entro numa livraria brasileira, faço vênias respeitosas aos autores canônicos. Bom dia, sr. Machado. Como está, sr. Freyre?
Passe bem, sr. Bilac. Mas avanço, ladino como um diabo, para a seção de auto-ajuda. E por lá fico, lambuzando os meus olhos insanos com dezenas e dezenas de conselhos "filosóficos". Terei cura? Duvidoso. E o exercício, pelo masoquismo evidente, não promete um futuro tranqüilo. Desde logo porque a experiência alimenta em mim uma tristeza profunda. Coisa estranha: manuais sobre a felicidade deveriam proporcionar alguma. Não proporcionam. Quando termino a leitura de um, e de outro, e de mais outro ainda, a minha infelicidade já subiu o Everest. Por cada "conselho", a úlcera incha. Por cada "máxima", o tumor cresce. E quando estou saciado deste festim cruel, saio para a rua. A rastejar. Como um verme. Como o verme que sou.
Explicações? Não tenho muitas. Sim, os livros são essencialmente falsificações grosseiras de ciência (ou filosofia) praticadas por pseudocientistas (ou pseudofilósofos) que julgam ensinar o que apenas se aprende, vivendo. Sem falar do óbvio: não existe uma "solução final" para todos os seres humanos, indistintamente considerados. E se você, leitor infeliz, sentiu um arrepio de horror pela espinha abaixo com semelhante expressão, confesso que foi de propósito: porque na idéia de uma "solução final" está sempre um convite para a tirania.
E os manuais de auto-ajuda são exemplos de tirania. De pequenas tiranias consumidas por escravos dóceis e fiéis que acreditam em dois equívocos. O primeiro é conhecido: não existe manual de auto-ajuda que não apresente o infortúnio como um elemento estranho à condição humana. A tristeza é uma anormalidade, dizem. O fracasso não existe e, quando existe, deve ser imediatamente apagado, ordenam. Na sapiência dos manuais, a infelicidade não é um fato; é uma vergonha e uma proibição.
O que implica o seu inverso: se a infelicidade é um proibição, a felicidade é obrigatória por natureza. Obrigatória e radicalmente individual. Ela não depende da sorte, da contingência e da ação de terceiros: daqueles que fazem, e tantas vezes desfazem, o que somos e não somos. Depende, exclusiva e infantilmente, de nós. O tom é militar e marcial; a felicidade é uma batalha e uma conquista. E eu rendo-me ao primeiro disparo. Quem suporta semelhante fardo? Quem consegue suportar a obrigação totalitária de ser feliz?
Todos os dias, um batalhão de brasileiros corre às livrarias do bairro em busca do que não pode ser procurado. Apenas vivido e, sem explicação ou regra, encontrado quando encontrado. A "busca da felicidade" não passa de um clichê televisivo que só alimenta a infelicidade dos desesperados.
Fonte: Jornal Folha de São Paulo.
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Quando a última árvore cair,
derrubada; quando o último rio for
envenenado; quando o último peixe for pescado,
só então nos daremos conta de que
dinheiro é coisa que não se come".
(Índios Amazônicos)

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